A jornalista Nadja Vladi entrevista Tati Lima, uma das coordenadoras do Paisagem Sonora.

 

Nadja Vladi - Como vocês definem a ideia central do conceito do Paisagem Sonora?

 

Tati Lima - Paisagem Sonora é um conceito do compositor, ambientalista e pesquisador canadense Murray Schafer que sugere a atenção para a diversidade de sons que compõem os ambientes. No texto “O ouvido pensante”, Schafer explica: “qualquer coisa que se mova, em nosso mundo, vibra o ar. Caso ela se mova de modo a oscilar mais que dezesseis vezes por segundo, esse movimento é ouvido como som. O mundo então está cheio de sons”. A partir dessas ideias é possível pensar em uma ecologia sônica envolvendo a música e os ruídos produzidos pela natureza, pelas ações humanas e pelos objetos (campainhas, trens, carros e máquinas em geral). Desde a sua primeira edição em 2013, a mostra bianual parte da provocação de Schafer, que é criador das expressões “ecologia acústica”, “esquizofonia”, “som fundamental” e “paisagem sonora”,  sempre estabelecendo um link entre a paisagem do Recôncavo Baiano e a arte eletrônica".

 

- Qual foi a construção da curadoria (musical, acadêmica) para o evento desse ano? 

 

- Temos também como principais curadores da mostra Danillo Barata e Cláudio Manoel Duarte. Houve uma preocupação em conectar a arte eletrônica com os sons e expressões que compõem a paisagem do Recôncavo da Bahia. Também de trazer para a paisagem de Santo Amaro e Cachoeira sons, fazeres e variadas expressões artísticas de outras partes do Brasil e do mundo, a fim de fomentar a ampliação dos horizontes e o intercâmbio entre artistas. A curadoria também deu atenção especial às expressões de mulheres que produzem e refletem sobre a arte. Do ponto de vista acadêmico, como traduz o título da mesa de abertura "Paisagens, atores e redes", procurou-se enfatizar a indissociabilidade entre humanos e objetos, reunindo pesquisadores que pensam sobre as redes de sentidos que envolvem pessoas, paisagens, dispositivos e repertórios culturais acumulados através do contato com objetos (livros, áudios, filmes e vídeos etc.)

 

- Como se dá costura do conceito do evento a partir da programação?

 

- A programação envolve desde segmentos mais pop da arte eletrônica, como as apresentações de rap de sexta e os DJs, até trabalhos mais experimentais, como nas apresentações do Cine Theatro Cachoeirano no sábado e no domingo. Um trechinho do nosso projeto pode ajudar: "foco na arte eletrônica, reunindo autores, pesquisadores e coletivos que utilizam a arte digital e a música eletrônica como estratégias para potencializar um discurso, compartilhando repertórios, incorporando métodos de esgarçamento das linguagens e intervindo na paisagem das cidades de Cachoeira e Santo Amaro".

 

- O evento esse ano acontece em duas cidades do Recôncavo, qual a razão e como se dará esse link do evento com as duas cidades?

 

- Em Santo Amaro teremos oficinas em torno da cultura hip-hop (breaking, discotecagem para rap e grafitagem) no intuito de empoderar com atividades formativas a cena hip-hop na cidade e os interessados de outras cidades também. O DJ Jarrão, que faz a oficina de discotecagem em Santo Amaro, apresenta-se em Cachoeira na sexta, na noite de rap, em que teremos também um grupo de Santo Amaro, o UPP (Unidos pela Periferia), e um grupo de Muritiba, o Conceito Articulado, além das atrações nacionais do rap. Na abertura em Santo Amaro, teremos duas atrações de Cachoeira, o Coletivo Novos Cachoeiranos e Mateus Aleluia (Cachoeira/Luanda-Angola). No domingo, teremos o poeta Rubens da Cunha, o performer Lúcio Agra e o DJ Zivitin, de Santo Amaro apresentando-se em Cachoeira. Então podemos considerar que esse link se dá com o intercâmbio entre os artistas das duas cidades e é ampliado com a presença de outros artistas e pesquisadores nacionais e internacionais. A razão é a proposta que a mostra possa se expandir na paisagem do Recôncavo... As 2 primeiras edições (2013 e 2015) ficaram mais concentradas em Cachoeira. Agora, tanto Cachoeira como Santo Amaro têm centros da UFRB ligados à cultura e às artes em plena atividade. Daí a opção por incluir Santo Amaro.


O Paisagem Sonora é um projeto do Coletivo Xaréu financiado pelo Edital setorial de Cultura Digital da Secretaria Estadual de Cultura e apoiado pela UFRB, Secretaria Municipal de Cultura de Cachoeira, Secretaria Municipal de Cultura de Santo Amaro, Cine Theatro Cachoeirano, Teatro Dona Canô.

 

SERVIÇO

III Paisagem Sonora

Mostra Internacional de Arte Eletrônica do Recôncavo da Bahia

Shows, mostras audiovisual, performances, live pa, seminários, oficinas

De 25 de abril a 1º de maio/2017

Santo Amaro e Cachoeira (Bahia)

Entrada franca para todas as atividades

MÚSICA, VISUALIDADES, CULTURA DIGITAL E RECÔNCAVO BAIANO SE JUNTAM NO PAISAGEM SONORA